O Brasil começou muito bem, sufocava os chilenos e levava perigo ao gol do paredão Bravo. Neymar era caçado, pisado, empurrado e sofria faltas duras. Hulk estava simplesmente incrível, como melhor jogador em campo, brigava, corria, lutava e era perseguido pelo árbitro. O senhor Howard Webb deixou de marcar um pênalti claro no atacante brasileiro e invertia muitas faltas. Enquanto isso, a seleção brasileira trocava passes na defesa e saía com o lançamento longo.
Depois de um escanteio cobrado aos 18 minutos do primeiro tempo, a bola raspou nos cabelos de Fred e sobrou na segunda trave onde o defensor chileno Jara tentou tirar e acabou acertando a bola na barriga de David Luiz, indo parar no fundo das redes. Depois daí, começou o sufoco. O Brasil tornou-se irreconhecível e dava ao Chile o papel de protagonista, dentro da nossa casa. Os chilenos começaram a marcar pressão e os jogadores brasileiros não acertavam dois passes seguidos. Era roer as unhas e rezar para que a bola não entrasse.
Mas entrou! Depois de uma bobeira na cobrança de lateral, Hulk, logo ele, devolveu fraco para Marcelo, os chilenos aproveitaram e Alexis assinalou o empate. E tome pressão. Num jogo em que várias personagens tendiam a tomar o papel de herói, brasileiro, e vilão, pelo lado chileno, o papel ficou aberto até o fim. Poderia ser Neymar, um dos artilheiros da Copa, mas não lembro dele sequer tocar na bola até os trinta minutos da etapa final. Poderia ser o Hulk, cuja inspiração de apelido já está acostumado a ser herói, mas a pontaria estava longe de acertar o ponto vital dos adversários. Que tal Oscar? O jogador foi o melhor contra a Croácia, mas deixou a desejar também nessa partida. Nem David Luiz, nem Fred, Thiago Silva, Marcelo ou Dani Alves. O Brasil jogou como o Chile de quatro anos atrás.
Vargas, ex-Grêmio, poderia ser o nosso vilão. Mas não apareceu no jogo e foi logo substituído no segundo tempo. Poderia ser o Arturo Vidal, que jogou com dores no joelho esquerdo, acertou passes fantásticos com uma facilidade incrível, mas também não cumpriu esse papel. Alexis Sanchez, talvez. Não. Foi o gol e pronto. Mas havia, para os brasileiros, muito mais chances de conhecer um vilão, que um herói. Pinilla, que entrou no segundo tempo, acertou o travessão depois dos quarenta minutos da etapa final. O travessão seria o nosso herói? Há quem diga que sim.
Não saiu mais gols nem na prorrogação. Neymar com fortes cãibras parecia que não ia bater. David Luiz, que era dúvida para a partida, cobrou o primeiro e converteu. Willian e Hulk perderam seus pênaltis. Pinilla, candidato a vilão, foi, mas para o seu país. Errou a primeira cobrança. Alexis Sanchez também perdeu. Nas duas últimas cobranças o resultado estava igual. Dois a dois. Neymar bateu e converteu. Era pressão demais sobre Gonzalo Jara, que teve pelo menos 50% de colaboração no gol do Brasil em tempo regulamentar. Bateu e perdeu. A bola bateu na trave esquerda e cruzou todo o gol de Júlio César antes do fraquíssimo Howard Webb decretar a vitória brasileira.
Tínhamos nosso herói. Júlio César, que quatro anos depois das duas falhas que decretaram a eliminação brasileira em 2014, volta a chorar, de alegria dessa vez. Já havia feito um milagre ainda no primeiro tempo e teve de suportar a pressão chilena em quase todo o jogo e depois pegou dois pênaltis que foram imprescindíveis para a classificação brasileira. Agora, sabemos que precisamos melhorar. Muitíssimo. Eu diria que absurdamente mais do que o futebol apresentado hoje, deve ser jogado contra o vencedor de Colômbia e Uruguai. Sexta-feira, nas quartas-de-final, precisamos que todos se tornem heróis para que não soframos tanto. Que vá embora o Chile, que os chilenos é que se lamentem, esses monstros em campo. Hoje podemos dizer que essa realmente é a melhor seleção do Chile de todos os tempos, com um técnico mais do que competente, com jogadores raçudos e brilhantes. Que venha o próximo jogo, temos uma semana para nos recuperarmos desse exame disfarçado de jogo de futebol.
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